Inimigo do copo
Remédio americano que diminui a vontade de beber será fabricado no Brasil
Boa notícia para os brasileiros que tomam ReVia, o remédio contra alcoolismo vendido com sucesso nos Estados Unidos há dois anos. O medicamento ficará mais barato a partir de setembro, quando começar a ser fabricado no Brasil pelo laboratório Cristália. A caixa com 30 comprimidos - hoje importada por R$ 250 - custará cerca de R$ 150. Ainda assim não é barato. Apenas pacientes com bom saldo bancário poderão experimentar os efeitos benéficos atribuídos à droga. O ReVia diminui a vontade de beber porque impede a liberação de dopamina e betaendorfinas no cérebro quando a pessoa consome álcool. Sem essas substâncias opióides atuando nos neurônios, a sensação de prazer provocada pela bebida desaparece e, conseqüentemente, a força do vício.
Antes de seu lançamento nos Estados Unidos, a Universidade de Yale testou o remédio durante três meses. Foram analisados 104 homens e mulheres dependentes de álcool que já participavam de grupos de apoio e de tratamentos psiquiátricos. Dos pacientes que tomaram cloridrato de naltrexona (o princípio ativo do ReVia), 77% deixaram a bebida. O medicamento também diminuiu a possibilidade de recaída e aumentou a adesão ao tratamento. Aí está um ponto-chave. Ele só funciona quando a iniciativa de recuperação parte do próprio paciente, orientado por um psiquiatra. "O ReVia não é uma panacéia para curar o alcoolismo, mas uma arma a mais", diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo. Vinte pacientes do consultório particular de Laranjeira tomaram o remédio. Quinze deles beberam algumas vezes mais e dois voltaram a alcoolizar-se.
As estatísticas são as mesmas de outros especialistas. Apenas um em cada três alcoólatras atendidos pelo psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas de São Paulo, é orientado a tomar ReVia. O restante não demonstra comprometimento com o sucesso da terapia e, nesses casos, Andrade não acredita na eficácia do remédio. São aquelas pessoas levadas à clínica por conta de um acerto familiar ou que claramente mentem ao médico sobre seus últimos deslizes. "Alguns acham que com o ReVia podem voltar a beber socialmente, mas isso não existe", afirma Andrade.
Nenhum cientista conseguiu, até hoje, explicar por que uma pequena parcela dos usuários torna-se dependente e tem sua vida destruída. Há três categorias de consumidores: bebedores sociais (80% do total), bebedores-problema (os 10% que estão a caminho da dependência) e os alcoólatras (a parcela restante considerada doente). O álcool age igualmente no cérebro de todos eles, como se fosse um spray direcionado a princípio sobre a víscera cinzenta, área responsável pelo comportamento que, depois de alguns goles, relaxa e libera a autocensura. Em seguida, o álcool age sobre a parte do cérebro encarregada da concentração e da coordenação motora.
Por alguma razão desconhecida, certas pessoas metabolizam mais a droga do que outras e o corpo fica adaptado ao consumo crônico. Nesses casos, as células só funcionam bem na presença de álcool. Sem ele, ocorre a síndrome de abstinência, em que a pessoa sente insônia, irritabilidade, tremores e distúrbios neurológicos. É o caso do dependente que acorda trêmulo e só consegue abrir a porta de casa ou assinar um cheque depois da primeira dose.
Dependente químico há 35 anos, o comerciante G.L.F, gaúcho radicado em São Paulo, toma ReVia há dois meses e já observa mudanças. Não sente vontade de beber nem aversão quando percebe cheiro de bebida. "Faz 60 dias que estou completamente indiferente ao álcool", conta. Ele já havia experimentado essa sensação em tratamentos de desintoxicação anteriores, mas nunca por mais de 15 dias. Os amigos de G.L.F. têm comentado que ele remoçou e o comerciante credita a transformação ao tratamento. "A única coisa diferente que fiz nesse tempo foi parar de beber e tomar ReVia", afirma.
O remédio é contra-indicado a consumidores de analgésicos à base de morfina, como os utilizados para aplacar a dor do câncer, como o Metadon - aliás, o principal produto do Laboratório Cristália, segundo seu gerente de marketing, Carlos Silva. Outra importante restrição é feita às pessoas com distúrbios hepáticos. Assim como o álcool, o ReVia é tóxico ao fígado e por isso os pacientes só podem ingeri-lo após uma análise clínica. O álcool é responsável por mais da metade das mortes provocadas por substâncias tóxicas. Tomado por longo tempo, tem efeito corrosivo sobre os órgãos. No fígado provoca cirrose, no sistema nervoso desativa os sentidos e os reflexos, cortando as ordens aos sistemas vitais, como o de respiração e de circulação sanguínea.
O ReVia é o primeiro medicamento específico para diminuir a vontade de beber aprovado pela FDA, a agência reguladora de remédios e alimentos nos Estados Unidos. Antes deles, os pacientes contavam apenas com o dissulfiran (vendido com o nome de Antietanol). Ele não diminui a vontade de beber, mas provoca reações violentas no organismo se a pessoa consome álcool. Com medo, o paciente não bebe.
O problema é que, no desespero, muitas famílias misturam o medicamento na comida e o alcoólatra passa mal sem ter consciência do que ocorre. Vários núcleos do grupo de apoio Alcoólicos Anônimos (A.A.) discordam do uso de medicamentos e não vêem vantagem na chegada do ReVia ao país. "As pessoas podem se iludir, achar que estão curadas e voltar a beber", acredita Cláudio F., coordenador do A.A. no Estado de São Paulo.
FONTE
http://epoca.globo.com/edic/19980713/ciencia2.htm
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