Esperança contra o alcoolismo custa muito
Medicamento que inibe o prazer de beber tem 50% de eficácia, mas preço alto dificulta tratamento
Lara Viviane de Lima
Florianópolis - Com 50% de eficácia (índice considerado alto pelos especialistas), a droga Naltrexona inibe a sensação de prazer proporcionada pela ingestão de álcool e está sendo encarada como uma nova esperança no combate à doença.
Porém, por ser muito caro, o medicamento não está disponível na rede pública de saúde e, portanto, ainda é inacessível à grande maioria da população. Uma caixa com 30 comprimidos do ReVia, medicamento que leva a Naltrexona, custa R$ 150,00 e dura apenas um mês de tratamento. O preço do ReVia está alto porque sua distribuição no Brasil, iniciada em janeiro deste ano, é feita exclusivamente por uma multinacional com sede em São Paulo. Nos Estados Unidos a droga já é usada há sete anos e os medicamentos a base de Naltrexona são disponibilizados pela rede pública.
Segundo o psiquiatra Marcos Zaleski, diretor-geral do Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina, apenas dois dos 40 pacientes alcoolistas da instituição estão sendo tratados com o ReVia, por arcarem com os custos. Ele lamenta que o medicamento esteja tão caro diante dos "excepcionais" efeitos constatados pelos pacientes em tratamento.
A indicação de Naltrexona associada às "técnicas cognitivas comportamentais", que consiste na mudança de hábitos, asseguram 50% de eficácia: "De cada dois pacientes um recai". Só a reeducação garante 35% de eficácia e apenas a desintoxicação, 20%, compara.
O psiquiatra espera que outros laboratórios passem a produzir o medicamento, o que poderá fazer o preço cair. Segundo informa, a metade dos pacientes que chegam ao instituto com problemas psiquiátricos são alcoolistas. Conseqüentemente, a demanda pelos medicamentos contra o alcoolismo é muito alta e fica inviável distribuir gratuitamente, pelo Sistema Unico de Saúde (SUS), um produto de preço elevado.
Uso restrito aos pacientes que têm plano de saúde
No Instituto São José, localizado no município de mesmo nome, na Grande Florianópolis, apenas os pacientes que têm plano de saúde privado são tratados com o ReVia, informa o psiquiatra Aristeu Stadler, coordenador do serviço de dependência química da instituição. Dos 40 pacientes internados por dependência química - alcoolistas e pacientes dependentes de outras drogas -, apenas dez têm plano particular. Entre os 32 alcoolistas, apenas sete são tratados com ReVia, medicamento composto com a droga naltrexona.
Segundo Aristeu Stadler, a indicação do medicamento, combinada com terapias de apoio ao paciente e à família, tem alcançado "boa resposta" entre os pacientes que não precisam de internação - assistidos somente no consultório. Já entre os que estão internados, ainda não é possível avaliar o tratamento. "Os pacientes estão na fase de internação e, portanto, não têm acesso a situações convidativas, estão protegidos. Uma resposta mais concreta só será viável no momento da alta", analisa. Somente daqui a três meses o psiquiatra terá como avaliar os efeitos da naltrexona nestes pacientes.
O psiquiatra observa que o alcoolismo é uma doença bastante complexa, que interfere na vida social e profissional, e que "necessita de outros instrumentos, além dos medicamentosos". Neste sentido, define, "a naltrexona deve ser vista como um coadjuvante no processo". (LVL)
Droga é indicada para evitar freqüentes recaídas
O que faz a Naltrexona ser considerada a droga mais eficaz no tratamento é a forma como ela atua no sistema nervoso central. O psiquiatra Marcos Zaleski explica que o medicamento inibe a liberação de endorfina, substância que, na ingestão de álcool, dá a sensação de prazer. "A vontade de beber pode permanecer na imaginação da pessoa. Mas como ela bebe e não sente o mesmo prazer da última vez em que bebeu a tendência é que perca a vontade de continuar bebendo. Por este motivo, o ReVia é indicado para pacientes que recaem freqüentemente", explica.
Com base nos estudos já realizados com o medicamento nos Estados Unidos, onde o ReVia é indicado desde 1992, o psiquiatra Aristeu Stadler afirma que "o ganho da naltrexona é ajudar o paciente neste momento difícil de manter-se abstêmio". "A forma como a droga age é exclusiva. Ela não concorre com as outras drogas", completa. Diferente dos benzodiazepínicos, usados na desintoxicação, a naltrexona não gera dependência química.
Ele ressalta, contudo, que o uso do medicamento tem de ser combinado com psicoterapias e programas de ajuda mútua (como o Álcoólicos Anônimos). "É preciso encontrar novas formas de obter satisfação", defende. (LVL)
Professor comemora abstinência
Há cerca de dois anos o professor, que preferiu não se idenficar, se deu conta de que o alcoolismo estava prejudicando sua vida particular e profissional. "Como é progressivo, fica difícil precisar quando se tornou um problema", explica. O professor procurou o tratamento médico a base de ReVia por influência da mulher dele, que havia lido sobre a eficácia do medicamento, que leva a droga naltrexona. Neste sábado ele completa duas semanas de tratamento com ReVia e 25 dias sem beber. "O uso do medicamento exige que o fígado esteja em boas condições. Isto é fundamental", salienta. Este estágio de preparação para o início do tratamento dura um pouco mais de uma semana, estima.
O professor tem 47 anos, bebe há alguns anos e nunca havia procurado nem assistência médica nem apoio junto a grupos como o Alcoólicos Anôminos (AA). "Sempre achei que iria resolver na base do 'eu decido, vou botar minha vida em ordem'. Mas a dependência química é um problema físico. Quando você pára de beber por conta, no quarto ou quinto dia tem problemas orgânicos. Só mesmo recorrendo a tratamentos químicos", explica. Ele observa que ainda é cedo para avaliar de forma conclusiva a eficácia do tratamento, mas está "satisfeito por ter parado de beber definitivamente".
Nos últimos 25 dias, o professor não bebeu "nenhuma gota" e, até por isto, "não saberia dizer se o medicamento diminui o prazer com a bebida". Ainda assim, explica, a droga "diminuiu violentamente o impulso pelo álcool e a necessidade de ter de se controlar". "Neste sentido, o medicamento fez efeito de maneira fantástica", aprova. Ele ressalta a vantagem do ReVia sobre outros medicamentos no que diz respeito a ausência de efeitos colaterais. "Tive menos problemas do que tenho quando tomo um analgésico", compara. Somente os quatro primeiros dias da medicação foram "dramáticos", confessa. Neste período, explica, "o medicamento não eliminava completamente a vontade de beber".
Passado este período sem ingerir álcool, o professor se sente bem. "Estou tão bem quanto antes de entrar nesta loucura", compara. "É claro que ainda tenho de me controlar. Sempre que for a uma festa e me oferecerem bebida terei que recusar. Mas encaro isto como um jogo em que o empate não faz sentido". O professor está consciente de que precisará administrar esta questão "pelo resto da vida". Mas acha que o controle que o alcoolismo exige não é maior do que aquele exigido das pessoas que precisam evitar açúcar e gordura ou fazer hemodiálise. (LVL)
FONTE
http://www1.an.com.br/1999/jul/25/0ger.htm
0 comentários:
Postar um comentário